Em 08/04/2019

 

Uma descrição de Itaporanga no tempo da Ditadura Militar

 



             Editorial (Sousa Neto) - Nem todos vivenciaram nem todos leram sobre a Ditadura Militar, regime que governou o Brasil entre a maior parte da década de 60 e meados da década de 80. O presidente Bolsonaro costuma elogiar a ditatura e até mandou que os quartéis comemorassem o golpe que instituiu o regime, mas, conforme a verdade histórica, foi um tempo de opressão, perseguição, tortura, assassinatos, exílio, censura, intolerância, corrupção velada, falso moralismo, profunda injustiça social, pobreza e completa ausência de liberdade e de garantias individuais.  

            Muitos conhecem a ditadura exatamente pelo peso sanguinário de sua mão contra as pessoas que se opuseram ao regime durante seus 20 anos, mas há outra face da ditadura igualmente grave pelas consequências nefastas para a sociedade brasileira: a má gestão econômica, o endividamento externo, os equívocos na educação pública, a falta de serviços básicos de saúde, a profunda miséria do povo e outros graves problemas sociais também mataram muito no tempo dos generais.

            Em Itaporanga, no tempo da ditatura, por exemplo, a maior parte dos seus moradores eram analfabetos; era altíssimo o índice de mortalidade infantil e materno; a pobreza atingia mais de 80% da população; a alta inflação impedia o acesso de grande parte do povo ao consumo, inclusive de insumos básicos. A fome atingia quase todos os lares e havia constantes saques ao comércio. Não havia saúde pública e a escola era um privilégio de poucos. O mercado pouco tinha para vender: equipamentos como fogão a gás, carro, moto, TV e telefone eram “luxo” de pouquíssimos. Energia elétrica e água encanada também eram serviços limitados e insuficientes. Estradas e transportes eram poucos e precários.

         As terras igualmente estavam nas mãos de apenas meia dúzia de privilegiados, que exploravam trabalhadores rurais, submetidos ao regime de semiescravidão. Os donos da terra também eram donos dos seus moradores e igualmente se sentiam donos das filhas e mulheres desses camponeses, que nada tinham a não ser a força de trabalho. Já os negros eram proibidos de frequentar os mesmos lugares dos brancos sob pena de prisão e agressão.

            Ainda nesse tempo em Itaporanga, os coronéis políticos mandavam e desmandavam na polícia, na Promotoria e na Justiça. Quem ousasse contrariar seus interesses era perseguido, agredido, preso e, em muitos casos, eliminado. A vingança, o revide, a pistolagem e a intolerância eram comuns.

             As mulheres eram extremamente submissas aos homens. A violência doméstica, física e sexual contra elas era vista como coisa comum e os agressores, protegidos pelos seus padrinhos políticos, não eram punidos nem quando trucidavam mulheres nem quando matavam os mais fracos na hierarquia social.

            Nesse tempo em Itaporanga imperava a lei do mais forte. Isso motivou as brigas sanguinárias entre famílias por hegemonia política e social no município. Não havia uma única feira livre sem a notícia de um cadáver, sempre uma morte de cada lado na contenda familiar. A elite econômica e política, que era dona do poder e fazia o que queria com as rendas públicas, também oprimia, humilhava e maltratava os mais pobres, vítimas de profundas injustiças e sem qualquer liberdade e oportunidade de progredirem na vida. Se não havia tanto roubo é porque não havia tanto o que roubar pela grande pobreza social, mas era costumeiro os mais fortes e protegidos pelo revólver e pela política tomarem terras e animais dos pequenos agricultores, que não podiam se defender nem tinham a quem recorrer.

            A ditatura ruiu em 1985, mas muitos dos seus resquícios permaneceram, alguns até hoje, a exemplo da truculência das forças de segurança, que matam milhares todo ano; o machismo nas relações conjugais; o atraso na educação pública; e o autoritarismo de nossas instituições judiciárias, administrativas e políticas. Já cânceres sociais como a inflação e a miséria, também heranças da ditatura, começaram a ser vencidas a partir da segunda metade da década de 90 com a estabilidade econômica, ampliação da seguridade social, o aumento do emprego, do nível salarial e do consumo.

          Precismaos, cada vez mais, avançarmos na civilidade, e não retrocedermos ao brutalismo do passado.

 

 

 

 

 

           

 

 


 

 

 

 
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