Em 02/05/2021

 

Se eu me chamasse Juliette ou vivesse em Marte... Mas me chamo José e moro em outro planeta

 



           Editorial -  Se eu estivesse em Marte já teria sido ouvido, mas o Curiosity é que estou na Paraíba, outro planeta, distante de tudo, orbitando a galáxia da ignorância brasileira. Se, pelo menos, eu me chamasse Juliette, o folclórico me daria foco e fogos, mas me chamo José e nunca viajei a Marte, porque enjoou carro. Nasci para ficar por aqui mesmo, mas queria que meu grito fosse além de minhas pernas.

            Todo mundo quer ouvir um marciano, mas um paraibano de cabeça chata e conversa chata, pernas finas e fala arrastada? Não, ninguém tem Curiosity de ouvir. E o que importa o silêncio das escolas públicas da Paraíba e deste Vale e o gemido de fome dos meninos dentro de casebres sem merenda? Não, não importa. O interessante é ouvir o som do vento em Marte. Para o mundo lá fora e para o mundo aqui dentro, qualquer resquício de qualquer coisa marciana é mais importante de que qualquer exemplar humano infante nascido neste estado. Procuram vida por lá, porque a vida por aqui e por ali já não é importante, porque nunca foi importante.

         Pareço um extraterrestre ao querer debater o futuro se nem o presente importa: sou um grito quase que solitário em defesa da educação escolar pública aqui, na terra mais oriental e mais desigual das Américas. Grito contra os decretos sanitários e mortíferos do governo estadual seguidos pelos municípios no que se referem à escola dos filhos dos trabalhadores. Mas ninguém me entende ou finge não me escutar.

        É compreensível que a dita imprensa paraibana fale mais sobre Morte e Marte do que sobre educação nesses tempos virais: quase toda ela é financiada pelo dinheiro público de governo e prefeituras. Para quase todos os mandatários, bom mesmo é escola pública fechada para evitar gastos reais. Interessante mesmo são os gastos fictícios e ficcionais, assim como as peças cinematográficas sobre o Planeta Vermelho. Muito ferro por lá e ferro nos pobres aqui.  

          Compreendo também que a dita grande imprensa brasileira também não debata fundamente educação escolar pública neste momento. Não pode gastar seu tempo e espaço com um assunto que não rende audiência: melhor mesmo é esperar a próxima tolice que sairá da boca do Presidente para faturar boas manchetes.  

                Na Paraíba, uma coisa única no universo: os meninos da escola particular dizem presente, enquanto na escola pública tudo é ausência e deserto, até parece a superfície marciana. A educação por aqui virou refém das corporações e talvez não saia com vida. As forças sindicais da rede particular de ensino querem aulas presenciais em suas escolas e conseguiram desde o final do ano letivo passado, enquanto as forças sindicais dos servidores da educação pública não querem aulas presenciais nas escolas públicas e conseguiram também. O governador, conhecido como João Sem Braço, guiado sem rumo pelos ventos sindicais do ensino e, no mesmo instante, amarrado por estas corporações, resolveu servir a Deus e ao Diabo ao mesmo tempo, gerando monstrengos dentro dos seus decretos, coisas tão horríveis quantos os extraterrestres do cinema.

          Então, em decretos sucessivos desde fins de 2020, João Sem Braço mantém abertas as escolas particulares, onde estudam seus netos e netos e filhos de prefeitos e outros menos poderosos e mais poderosos; enquanto as escolas dos filhos dos trabalhadores estão de portas fechadas pelo segundo ano letivo e consecutivo. E mesmo depois que o governo abriu tudo, da butique ao boteco, ao dizer que a pandemia por aqui está sob controle, a rede pública permanece fechada, aliás, é a única coisa fechada por aqui. Até o caberé de Ruth está aberto e nunca esteve tão bom como agora, é coisa do outro mundo.

           Dizem que as escolas públicas precisam ficar fechadas para proteger os meninos das garras do corona, mas os meninos estão nas ruas, lugar de vírus e marginalidade, porque nem sempre estar em casa é suportável pela fome e pela pancada e há os que nem casa têm.

         Não preciso de um telescópio nem de um microscópio para ver que é bem mais provável que esses meninos e meninas morram ou adoeçam pela subnutrição ou pela surra do que pela virose pandêmica. A ciência concorda comigo e as estatísticas confirmam essas verdades.

          Dizem que estão preocupados com a saúde de meninos e meninas da escola pública, mas comem a merenda no lugar deles.

          Sim, falam também em aulas remotas. Aulas remotas? Deixa essa conversa para depois, estou tratando de coisa séria, não é hora de estória de marciano.  

 

 

 

 


 

 

 
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