Curto & Grosso
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    Em 27/04/2017

     

    Um ponto positivo da Reforma Trabalhista que o próprio trabalhador desconhece

     



              Não faz muito tempo que conversei com dois trabalhadores: um do serviço público e outro, de uma indústria têxtil.  Ambos reclamando que, todo ano, era descontado dos seus parcos salários um tal de imposto sindical. O dinheiro, que não é pouco, vai diretamente para um sindicato que eles nunca ouviram nem falar, não sabem onde está localizado e, muito menos, defende seus interesses e direitos trabalhistas.

                No Brasil, são milhões de trabalhares nesta situação, ou seja, dando o seu suor para alimentar sindicatos que não os representa.  A Constituição diz que ninguém está obrigado a se filiar a sindicato e muitos evitam a contribuição mensal, mas já o imposto sindical, como o próprio nome diz, é obrigatório. No entanto, esta imposição está prestes a acabar: é que a Reforma Trabalhista, já aprovada na Câmara Federal e que agora vai para o Senado, transforma o imposto em uma contribuição opcional. O trabalhador dá se quiser. Bom, positivo, democrático.

                Quem não está gostando nada disso são os sindicatos, muitos deles verdadeiras organizações criminosas e ricas. Não é raro ver entidades sindicais, daqui para Brasília, servindo aos seus dirigentes muito mais do que aos próprios trabalhadores. Esses dirigentes ganham prestígio, dinheiro e, muitas vezes, até cargos públicos ou benesses para favorecer aos patrões ou transformar seus sindicatos em instrumentos de defesa a determinados grupos políticos e partidários.  Não defendem os empregados; defendem seus próprios interesses pessoais e políticos.

                Com a Reforma em curso, muitos sindicatos estão apreensivos pelas perdas financeiras que vão ter e passaram a manipular os trabalhadores contra o projeto sem explicar profundamente e com seriedade quais as mudanças propostas positivas e negativas. Há inúmeras mentiras correndo nas redes sociais e nos meios de comunicação sobre a Reforma, que, no geral, tem não apenas um, mas alguns pontos positivos para o trabalhador, a exemplo do acordado sobre o legislado, evitando a judicialização, e a regulamentação de novas relações de trabalho, que vieram com os avanços tecnológicos.

               O sindicalismo é necessário na democracia, e há muitos sindicatos sérios, mas há muita promiscuidade também nesse meio. Representando bem o trabalhador, os sindicatos vão pedir por direito e ter com certeza o apoio financeiro dos seus associados sem a necessidade do instrumento da imposição.

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    Em 22/04/2017

     

    Eu já sabia...

     



                   E quem não sabia? Todo mundo já sabia: nenhuma surpresa nos novos capítulos da Lava-Jato. A novela da podridão e promiscuidade dos bastidores do poder, agora desnuda pelas delações e mostrada em cores e frieza pela TV, sempre deu sinais: seu cheiro fétido sempre esteve vistoso nas campanhas eleitorais, e todos sabiam. Sabiam, sim, dessa relação escusa entre poder político e o capital privado.

                    Vinda da corrupção nas obras públicas, a propina passa a alimentar outro modelo de corrupção: a eleitoral. O dinheirão que movimenta as campanhas milionárias de prefeitos, deputados, senadores, governadores e do presidente da República vem de onde? Se não das obras inacabadas, superfaturadas ou mal feitas ou nunca feitas. Uma Lava-Jato só é pouco para o Brasil.

                    Ninguém é ingênuo, todos sabiam que essa dinheirama toda nas campanhas eleitorais tinha um preço alto para a sociedade, gerando um circulo vicioso. Todos sabiam, aliás, todos não: a Justiça Eleitoral, os Tribunais de Contas, as Controladorias não sabiam, coitados.  Sim! Lula, Dilma e Aércio e Alckmin também não sabiam, pobrizinhos.

                    No próximo ano, tempo de eleição, o eleitor será o juiz de todas essas coisas e somente ele pode passar este país a limpo pelo verectido do voto, mas, não acontecendo isso, é o fim: nem a esperança restará por aqui.

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    Em 17/01/2017

     

    Os criminosos engravatados “cuidando” dos criminosos descamisados. Vejam no que deu...

     



               A verdadeira causa da crise penitenciária brasileira, que já tem muitas décadas e incontáveis vítimas, não são nem nunca foram as ditas facções criminosas nem os celulares, drogas e armas dentro do sistema carcerário. Isso é tão somente consequência. A causa primária do caos é outra e está fora da cadeia, mas poucos sabem  e quase ninguém comenta. A dita grande mídia não reflete o assunto com profundidade por ser ignorante e os gestores públicos iludem a opinião pública: mentem e tergiversam. Ministério Público e Tribunais de Contas também são enganados ou fingem ser.

                No Brasil, grande parte das famílias sobrevive com apenas um salário mínimo e, muitas delas, com até menos do que isso. Diante dessa realidade da maioria do nosso povo, surge um questionamento sobre o que dizem os governos em relação aos custos dos presídios: os dados oficiais mostram que cada preso, dependendo do estado onde se encontra, custa, em média mensal,  2,7 mil reais, 3 mil, 4 mil e até quase 5 mil reais. Mentira. Todos sabem ou deveriam saber, por uma questão lógica, que todo esse dinheiro não chega ao sistema penitenciário. A maior parte desses recursos é desviada para o bolso da corrupção nos governos estaduais, inclusive na Paraíba, Rio Grande do Norte, Amazonas, Roraima, Minas, Rio de Janeiro e em muitos outros estados.

                Pergunto: como pode um preso que passa um mês todo comendo lavagem (porque isso é o que servem na maior parte das cadeias e presídios) custar 3 ou 4 mil reais por mês? Mesmo que o preso pagasse aluguel, comesse bem, comprasse roupa e vivesse em boas condições de higiene e saúde não custaria tão alto. O problema é que os criminosos engravatados estão “cuidando” dos criminosos descamisados. E em quem a sociedade e a mídia vão acreditar? Claro que é no colarinho branco.

               Se todo esse dinheiro que eles dizem gastar com os presidiários fosse, de fato, destinado às unidades prisionais, nosso sistema carcerário seria maravilhoso e cumpriria seu papel de garantir a segurança, a dignidade e a ressocialização do preso. Mas a maior parte dos recursos é tragada pela corrupção, e crises como esta é a oportunidade para os governadores receberem mais dinheiro e rechearem ainda mais seus próprios bisacos. Eles superfaturam as construções dos presídios e, depois, passarão a ganhar também com cada encarcerado: um presidiário não custa mais do que 500 reais hoje, porque muitos nem água para beber têm, mas, na prestação de contas dos governos, custam milhares de reais. Uma mentira que quase todos acreditam, inclusive, quem deveria combater os desvios do dinheiro público.

                Querer atribuir a facções criminosas o problema dos presídios é uma ingenuidade e é exatamente o que os governos querem: desviar a atenção do problema maior, que é a corrupção. Claro que há dentro das unidades prisionais grupos rivais e muitos trucidamentos, inclusive é assim que os internos tentam despertar a atenção social,  mas nada de facções organizadas e perigosíssimas como os gestores públicos tentam transmitir à sociedade, talvez para esconder os verdadeiros bandidos responsáveis pelo problema, mas que esses, travestidos de gestores públicos, estão do lado de fora, vivendo luxuosamente à custa do dinheiro que era para resolver a questão carcerária.

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    Em 08/12/2016

     

    Uma injustiça com o Cabaré de Rosinha

     



               Por Sousa Neto - Troquei o título deste escrito e também grande parte do texto instantes antes de publicá-lo e não preciso revelar o apagado, mas dá apenas uma justificativa: a mudança foi pela razão de ter concluido que não é justo comparar a Câmara Federal com o Cabaré de Rosinha, porque neste ambiente há, pelo menos, sinceridade.

                Quem entra no Cabaré de Rosinha já sabe o que vai encontrar lá dentro, mas, na Câmara, você sempre se surpreende e se decepciona. Pelas madrugadas, todos sempre sabem o que acontece no Cabaré de Rosinha, mas é nas madrugadas silenciosas e misteriosas da Câmara que os interesses do povo costumam ser estuprados.

                 Além do mais, o citado cabaré parece representar bem melhor a predominância racial e social brasileira: a maioria das que lá se fixam e dos que lá passam são pretos e pobres egressos de famílias de baixa condição ou sem origem familiar. Na Câmara não, a grande maioria dos seus ocupantes são homens brancos, ricos e filhos de oligarquias políticas poderosas em seus estados, algumas delas arraigadas nesta Paraíba.

                Outra coisa: é certo que as mulheres de Rosinha vendem o próprio corpo aos prazeres alheios, mas o fazem para matar a fome e se manterem vestidas e vivas; mas, na Câmara, a prostituição é de verdade, pois os deputados vendem é sua própria consciência na cama de episódios como o Mensalão, e banqueiros, agroindustriais e empreiteiros também gozam bastante.  

                É bom também dizer que, em Rosinha, há mais ordem e decência. As meninas não costumam furtar os clientes (nenhum caso foi registrado até hoje), mas quem delas o fizer será duramente penalizada e não retornará ao ambiente. Na Câmara é diferente: eles furtam o contribuinte pelas propinas oriundas de superfaturamentos de obras e serviços públicos, como no caso do Petrolão, mas raramente são pegos e, quando são, quase nada acontece e, no próximo pleito eleitoral, retornarão ao recinto legislativo reeleitos e ainda mais fortificados.

                Não há dúvidas de que, no Cabaré de Rosinha, a intensa atividade corporal e culinária produz um ambiente, por vezes, sujo, mas nada que um bom desinfetante não resolva; já na Câmara, por mais que a Lava-Jato tente, parece não conseguir limpar tanta podridão.

                 Se por acaso, uma das meninas de Rosinha ou um dos seus clientes se envolverem em qualquer moído bobo e, intimados a um "juizeco", não comparecerem, é cadeia certa, mas, no Congresso, ordem do Supremo não costuma ser respeitada e o réu sai ainda mais vitorioso e superioso.

                É fato que as garotas de Rosinha estão lá porque não tiveram uma outra oportunidade pela falta de instrução ou degeneração familiar e precisaram fugir de uma quase escravidão nas cozinha ricas; enquanto muitos na Câmara não precisaram de nenhum esforço para ter uma vida luxuosa, até porque o primeiro emprego dos filhotes das oligarquias foi exatamente o cargo de deputado federal comprado nas urnas por sua família.

                  Dos que estão hoje na Câmara, quase todos mereceriam estar na prisão; dos que estão hoje na cadeia pública, nem todos são merecedores do cárcere, pois a marginalidade e o consequente crime vieram pela falta de oportunidade, educação e moradia. Talvez os principais ladrões estejam mesmo dentro do parlamento, porque, mesmo ricos, continuam furtando os cofres públicos e criando novos marginais pelos relentos noturnos de nossa juventude vulnerável.  

                Mas o que esses figurões da política querem são as cadeias cada vez mais cheias de injustiças e a Câmara cada vez mais cheias de privilégios, tanto que aprovaram prisão para meninos e meninas de 16 anos marginalizados, mas se negam a aprovar leis mais dura para punir os que furtam milhões do dinheiro público. Não querem criar penas fortes contra a corrupção para não correrem o risco de mais tarde eles próprios serem penalizados.

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    Em 09/04/2016

     

    Cavou a própria sepultura e agora mete o pau no coveiro

     



                 Por Sousa Neto - É impressionante como  o governo Dilma/Lula/PT, com cinismo e arrogância, procura culpar o coveiro pelo buraco que o próprio Planalto se enterrou. Ninguém é culpado pela morte moral deste governo, a não ser ele próprio pela sua ganância política. As alianças que construiu nos palanques de 2002 para cá foram uma poderosa injeção à sua saúde eleitoral, mas, ao mesmo tempo, um veneno mortal.  Vieram, agora, os sintomas dos efeitos colaterais e devastadores. Tão inchado que estava, o governo implodiu, ou seja, o mal agiu de dentro para fora.  Desvios, dinheiro, delações: os que estavam de braços dados na reeleição de 2014 são os mesmos que, agora, se esfaqueiam e todos falam a verdade quando se culpam e se acusam.

                    O governo Dilma/Lula/PT, apesar de suas muitas virtudes, criou cobra para lher morder o próprio pé ao agarrar-se a alguns dos mais questionáveis partidos e figuras da República, como Cunha, Renan, Temer, Collor, Sarney, Cabral e até Maluf, na busca obcecada dos petistas pelos votos nas urnas e no Congresso. Um projeto de poder alimentado pela indústria da propina gerada pelos desvios financeiros de obras e estatais, como a Petrobrás e tantas outras.

                    Com a queda das máscaras e a prisão dos mascarados pela Lava-Jato, o governo, combalido pela sucessão de escândalos, mas sem humildade para reconhecer seus erros, decidiu responder atacando e disparou contra todos os alvos possíveis: atacou a imprensa, a Justiça, o  Ministério Público, a OAB. Até os milhões que foram às ruas contra a corrupção também foram feridos pela pancadas morais do PT e aliados. Atiraram para todos os lados, e terminaram acertando o próprio pé e todo foi infeccionado. Tiveram os pés e o juízo amputados e ganharam ainda mais antipatias ao procurar culpados para se fazerem de vítimas e perseguidos, querendo dar ares políticos a um problema que é meramente policial, na tentativa de confudir a opinião pública em seu favor.

                    Se, diferentemente do que fez, o governo tivesse reagido aos fatos com humildade, autocrítica e um pedido de desculpa à nação, reconhecendo seus erros e defendendo-se com coerência e verdade, certamente ganharia mais aliados do que inimigos, e o caminho poderia ter sido outro e bem mais seguro para ele próprio e para o país. No entanto, agora a porta do impeachment foi aberta, mas, se a presidente for afastada, não diminui a crise, assim como não diminui se ela ficar: a instabilidade política vai persistir e, com ela, a falta de qualquer condição para o restabelecimento dos rumos da economia e da gestão pública.

                  É fato que o vice Temer e seu partido, o PMDB, não têm credibilidade para assumir os destinos dessa nação, porque estão entre os protagonistas dos escândalos.  Diante disso, não há dúvidas de que o caminho menos traumático para o país é uma nova eleição para presidente. Assim, a solução estaria na renúncia dos dois ou nas mãos do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), onde correm ações que visam cassar a chapa Dilma/Temer, reeleita em 2014. Se houver provas suficientes contra a chapa, como de fato parece haver, e ocorrer a cassação do diploma da presidente e do seu vice, uma nova eleição será convocada e o povo é que decidirá que rumo pretende seguir.

                  O momento que o país passa é traumático e penoso, especialmente para os mais pobres,  presas preferenciais da crise econômica pela sua vulnerabilidade financeira e social, mas talvez seja o caminho para uma nova página no Brasil. Sem dúvidas, há e sempre houve em quase todos os municípios e estados brasileiros, um mensalão e um petrolão operando, ou seja, a corrução não começou agora e certamente não vai acabar agora, mas o bom de tudo isso é a certeza de que o tempo de impunidade para os corruptos ricos e poderosos ficou para trás com a evolução das leis penais contra o colarinho branco e de instituições republicananas como a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça a partir dos seus novos, modernos e independentes quadros, mas, principalmente, com despertar da sociedade para este grande câncer que lhe tira a cidadania, que é a corrução.

                 Mas este mal não se concentra apenas em Brasília, também está e sempre esteve bem pertinho de nós. Das Prefeiuras ao Planalto, precismaos combater, pelo protesto, pela toga e pelo cárcere, esta profunda chaga social, matriz geradora dos nossos prolemas na saúde, na educação, na moradia e na segurança pública.

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    Em 01/01/2016

     

    O sujo falando do mal lavado

     



              Por Sousa Neto - Tentei compreender o atual momento do Brasil pela filosofia e ciência políticas, e não encontrei respostas. No entanto, notei que os dizerem das ruas respondiam com clareza e compreensão o conturbado momento nacional.

                O povo me ensinou o que os pensadores patinam e não dizem, e só a sabedoria popular para enxergar melhor a crise politica, moral e econômica que assola o governo e, em consequência, o país, porque é o cidadão comum o mais afetado por ela. Os ditados populares traduzem bem o momento atual.

                Para conceituar a conduta dos nossos políticos mandatários e revelar muito do nosso momento, escolhi alguns ditos que se encaixam bem em nossa realidade virgente:

               "Quem nunca comeu mel quando come se lambuza" (o PT passou anos lutando pelo poder e, quando  assumiu, foi com tanta sede ao pote que quebrou o pote). “O sujo falando do mal lavado” (PT e PMDB trocando farpas pela imprensa). “Cuspiu no prato que comeu” (Cunha falando mal de Dilma, mas na campanha passada estavam juntos e ele foi beneficiado com cargos no governo e dinheiro do Petrolão). “Até tu Brutos?” (Dilma, ao se sentir traída por Cunha, que rompeu com o governo para ficar com a presidência da Câmara). “A vingança é um prato que se come frio” (Cunha, que aceitou o pedido de impeachment contra Dilma ao saber que o PT não o protegeria no Concelho de Ética).

                   “A mentira tem pernas curtas” (Cunha ao falar na CPI da Petrobrás que não tinha contas no exterior). “Quem não chora não mama” (reforma ministerial feita pela presidente para conceder mais poder e cargos ao PMDB e ter o apoio do partido no projeto de ajuste fiscal no Congresso). “As aparências enganam” (ex-matelúgico, Lula transformou-se em um milionário, e mais riscos ainda estão seus filhos, um deles passou de funcionário de um zoológico para megaempresário). “Quem não pode com o pote não pega na rodilha” (promessas de Dilma na campanha pela reeleição eram mentiras deslavadas).

                 “Mato tem olhos, paredes têm ouvidos” (escutas motivam Justiça a mandar o senador Delcídio, líder do governo, para a cadeia, por tentar atrapalhar investigação da Lava-Jato). “Panela que muitos mexem, não toma tempero” (esquema de corrupção no governo envolvia muita gente e terminou implodindo a partir das delações). “Diga com quem andas e eu te direi quem és (as várias delações premiadas que resultaram em condenações e prisões decretadas pelo juiz Moro). “Comeu do meu mel e agora prova do meu fel (vice-presidente Temer em carta a Dilma). “Nada é tão ruim que não possa piorar” (possibilidade de Dilma ser afastada do poder e deixar a presidência para o PMDB de Temer, Cunha e Renan).

                “A corda sempre se arrebenta do lado mais fraco” (aumento de impostos, inflação e juros. O Planalto obriga o povo a cobrir o rombo nas contas públicas resultado da corrução e dos gastos irresponsáveis do governo). Outros dois ditados concluem a situação do povo na atual crise política e econômica: “Estamos em um mato sem cachorro” e “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

     

                    Folha Empresa. Direito Reservado. Proibida reprodução total ou parcial deste texto e imagem. Infratores sujeitos a penalidades cíveis e criminais.

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    Em 26/07/2015

     

    Algumas verdades que não precisariam ser ditas

     



                1 - Há os que seguem Cristo indo às igrejas, mas há os que, embora poucos, preferem segui-lo por outro caminho: caminham entre os pobres, marginalizados, doentes, loucos, prostituídos, encarcerados, abandonados, oprimidos, injustiçados, levando a todos um refúgio de esperança e gritando por suas causas e dores mesmo que não sejam ouvidos. Não são nenhum santo, e talvez até os maiores dos pecadores, mas não se preocupam se o mundo inteiro odiá-los por isso e até querer crucificá-los também. Também não estão preocupados com as incompreensões até mesmo dos que defendem. Sinceramente, não buscam recompensa nenhuma: nem na Terra nem no Céu. Este talvez seja o único espelho que me enxergo sem embaraços.

              

               2 - Naquelas noites claras de um lugar ermo e distante, eu costumava conversar com as estrelas. Na verdade, conversava comigo mesmo e, sozinho, dormia bem mais aliviado. Não tinha nem 19 anos e já me sentia o mais velho de todos os homens.

     

                3 - Acho que só uma coisa pode salvar o mundo: a solidariedade, e é importante criarmos uma corrente do bem: a cada dia, experimente fazer algo por alguém sem pensar em recompensa: se não puder ser alguma coisa material, que seja uma palavra de afeto, de conforto. Faça isso e você se sentirá maravilhosamente bem, é uma sensação de plena felicidade. A bondade ajuda principalmente a quem serve, mas você um dia poderá também ser servido. Quer ter uma boa saúde física e mental? Faça o bem. Enquanto o ódio nos enche de toxinas e tristezas, a bondade e o amor fortalecem nosso espírito e preservam nosso corpo. Pense em uma coisa: foi o homem quem inventou a religião, mas a solidariedade só pode ser uma criação divina.

     

                4 - Vivemos em um Vale de lágrimas: é uma seca tão quente e assustadora quanto as balas que têm chovido por aqui nos últimos tempos. Terra úmida somente de sangue e choro. Proporcionalmente, já somos duas vezes mais violentos do que São Paulo, mas, pelo menos, lá chove. Acabou-se a seca inventada pela mídia, mas nem mídia temos para levar nosso drama mais longe. A imprensa de João Pessoa é uma lástima: vive das futricas políticas e do sangue dos miseráveis da periferia.

               Depois da eleição, o governador desapareceu, seus secretários têm medo de sol quente e os deputados aqui votados têm razão de não querer negócio com a gente: já pagaram pelos votos do último pleito.

               Ficamos, então, com nossa estiagem, que se estende às escolas, onde não há com o que estudar, e aos hospitais, onde não há com que curar. Parece não haver remédio também para nossa criminalidade. Faltam comida e moradia para muitos, porque poucos ficam com o dinheiro dito público, mas, cada vez mais, particularizado. Vive neste Sertão só com a ira de Antônio Virgolino e a fé de Padre Cícero. Às vezes dá vontade mesmo de fazer uma guerra e, depois, vencendo ou perdendo, seguir a Juazeiro e pedir as bênçãos do meu Padim.

     

              5 - A corrupção é o maior de todos os crimes porque dela nasce os demais delitos: fica no bolso de meia-dúzia de políticos o dinheiro que seria para dar acolhimento ao menino de rua e evitar que ele se marginalize; falta dinheiro para garantir saúde mental para os usuários de droga, que, sem tratamento, vão roubar para alimentar o vício; falta dinheiro para garantir escola em tempo integral para evitar que meninos caiam no descaminho; falta dinheiro para moradia com consequência na degradação familiar pela miséria; falta dinheiro para dar cultura e esporte ao jovem periférico e evitar que ele se torne presa do tráfico.

               Ou seja, falta dinheiro para tudo que é importante porque sobram no bolso deles. E essas figuram ainda ficam enganando o povo ao propor cadeia para meninos pobres e pretos aos 16 anos e dizendo que isso é a solução do problema, meninos que eles mesmos fizeram marginais, porque ficaram com o dinheiro que era para fazer desses jovens e crianças gente de bem. Por que, então, esses políticos não propõem que a corrução se torne crime hediondo, aumentando o tempo de cadeia para quem rouba o dinheiro público? Não, isso eles não querem. Por que será?

     

                6 - Sei bem o que é ser mãe, o que são as mães, porque as vejo em ação nos piores momentos dos seus filhos. Nas delegacias, cadeias e tribunais, quando o mundo inteiro atira pedras e roga praga em suas crias, elas protegem-nas com lágrimas e argumentos nem sempre compreensíveis ao coração humano. Nem parentes, nem amigos, nem vizinhos, nem, às vezes, os próprios pais; somente as mães estão lá e firmes, muitas delas de tão sofridas e magras nem parecem carregar alguma energia, mas são tão fortes que nem parecem deste mundo. As leis maternas têm seu código próprio e suplantam as razões físico-químicas e as convenções penais humanas.

     

                7 - A mídia nacional enfoca tanto o terrorismo na europa e no oriente, mas esquece que não existe terror pior de que o que nós próprios enfrentamos dentro do Brasil: são cerca de 60 mil assassinatos por ano no país. É como se quase três Itaporanga desaparecessem a cada 365 dias feridas por balas e facas. Somando as perdas por atentados terroristas no mundo em um ano não chegam a um quarto dos assassinatos em nosso país no mesmo período. Mas nem a mídia nem o governo ligam para isso, porque quem está morrendo por aqui, em sua grande maioria, são pobres e negros, notadamente jovens entre 15 e 29 anos.

                Para a televisão elitista e a classe política corrupta, a vida desses brasileiros não vale nada, ou melhor, valem Ibope para os programas policialescos e números frios para o governo armazenar em suas gavetas. Somente em nosso pequeno Vale este ano foram 26 homicídios em menos de 7 meses. Sem investir em educação integral, saúde mental e moradia popular não vamos vencer a violência, mas o governo só oferece cadeia como remédio, mas cadeia sozinha não cura nada. A política do encarceramento é praticada há 500 anos e já se mostrou ineficiente, porque não se investe em prevenção.

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    Em 19/04/2015

     

    Daqui para Brasília, uma ilusão vendida como verdade

     



                                                                                                                                                                                       

                  Por Sousa Neto - Os poderosos não têm interesse no crescimento intelectual do povo para que possa iludi-lo com qualquer coisa ou promessa em tempo de eleição ou em qualquer tempo, mas sempre visando o voto. Em vez de propor solução verdadeira para atacar a causa da violência, que está relacionada ao nosso precário sistema de ensino e a injustiça social, eles querem agora botar adolescentes na cadeia para dizer ao povo que estão trabalhando pela segurança, mas o que vão fazer é agravar ainda mais o problema da criminalidade.

                  Muitos dos nossos senadores e deputados são tão hipócritas que eles mesmos dizem que o sistema carcerário está falido e é uma fábrica de bandidos, mas querem botar dentro desse sistema meninos e meninas que foram tragados pelo mundo do crime exatamente porque o dinheiro público que seria para transformá-los em gente de bem, a gente do mal da política botou no bolso, e agora defende a prisão para suas próprias vítimas.

                 A maioria das crianças e adolescentes que delinquem vivem nas ruas ou em famílias degradadas pela miséria e o álcool, muitos abandonados pelos próprios pais ou por que fugiram de casa em função dos maus tratos. Em vez de trabalhar pela melhora da educação, da saúde pública mental, pela ampliação da moradia e pela construção de centros de acolhimento de crianças e adolescentes abandonados, o que os políticos mandatários querem é tratar problemas sociais com polícia e cadeia, e toda essa criminalização e opressão contra os pobres e negros, já mortos aos montes pela omissão e balas oficiais todos os dias, vão brutalizar ainda mais nossas crianças e jovens periféricos.

                 No último dia 16, fez três anos que o professor Paulo Freire foi declarado patrono da educação brasileira, e, em sua “pedagogia crítica”, defendia que somente pela via do questionamento é que se constrói uma educação transformadora e libertária. Mas quero me reportar ao pensamento de outro grande educador nacional, Anísio Teixeira. A ideia da escola em tempo integral proposta por ele 80 anos atrás continua atual e não vejo outro caminho se não esse para livrar este país de todos os seus males, inclusive da violência.

                  Se o projeto de Anísio tivesse sido implementado décadas atrás, hoje os nossos terríveis e temíveis políticos não estariam na iminência, como estão, de jogar meninos e meninas aos 16 anos dentro da grande escola do crime, que são os presídios deste país, para que saiam de lá criminosos bem formados e irrecuperáveis.

                  Se em cada periferia dos pequenos e grandes centros urbanos do Brasil nós tivermos uma escola em tempo integral, não existiria tanto tráfico de droga, tanto assassinato, tanto roubo, tanta violência. Mas o dinheiro da escola em tempo integral eles botam no bolso e, depois, iludem a sociedade dizendo que vão resolver o problema da criminalidade enchendo ainda mais as cadeias e condenando gente já condenada pela injustiça social resultado da corrupção. Por que eles, então, não aumentam a pena para quem desvia o dinheiro público? Não, isso eles não querem, o que querem é nos iludir, e muitos se iludem porque não querem ou não foram ensinados a pensar criticamente como propôs Freire.

                  Mas, na verdade, os políticos não estão preocupados em resolver o problema da segurança pública, o que querem, principalmente, é jogar para a torcida, é aparecer bem na mídia policialesca e alienante comandadas por figuras televisivas que vivem do sangue e das desgraças alheias como Datena, Rezende, Samuka e muitos outros.

                  É importante ressaltar que o Estatuto da Criança e do Adolescente já prevê punições a partir dos 12 anos, mas os governos não melhoram nem ampliam os centros de recuperação e mentem para o povo dizendo que a cadeia resolve. Se resolvesse, 99,9% dos crimes mais graves que ocorrem neste país não seriam cometidos por maiores de 18 anos, ou seja, cadeia não impede a delinquência porque combate apenas os sintomas do mal, não suas causas. Se não houver mudança na estrutura social desta região e deste país, não haverá solução.

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    Em 26/04/2014

     

    O menino Zezinho e o Brasil da Copa

     



    Por Sousa Neto - Zezinho é um dos muitos meninos brasileiros a vagar descalço e maltrapilho pelas ruas qual cão sem dono, mas talvez um cachorro qualquer seja melhor tratado pelos seus semelhantes. Carrega consigo poucas vontades, e uma delas é o futebol, mas, quando raro encontra uma turminha que o acolhe em uma brincadeira de bola, mal pode correr pela desnutrição e os pés nus. O país que gasta bilhões com a Copa não tem iniciativa de promover um campeonatinho sequer para meninos como ele. Aliás, não tem nada para meninos como ele.
    Não se incomoda com a roupa velha que veste nem se envergonha de não ter o que calçar, mas a fome é um incômodo constante: nem todos os dias as ruas lhe dão as migalhas do tamanho de sua necessidade. No país da festa pela Copa há crianças que não têm o que comer.
    Mas da escola não sente falta: esteve algum tempo por lá, e de lá saiu tão analfabeto como entrou. Nem se acostumou ao ensino nem o ensino a ele. Hoje aprende o que as ruas ensinam, e as lições não são as melhores, mas são bem mais atrativas. É o país de estádios luxuosos e escolas precárias.
    Outro dia, o menino Zezinho passou mal e, tomado por dores, por muito tempo permaneceu no chão entre transeuntes indiferentes à sua agonia, até que, enfim, alguém o socorreu, mas no hospital não havia vaga: estava cheio de gente e gemidos. Teve medo daquele lugar. Lembrou da história de uma tia que entrou doente ali e dali saiu morta. Resolveu ir embora sem ser atendido. As dores já não estavam tão fortes. O país que cuida tão bem dos preparativos para a Copa é tão negligente com a saúde dos seus próprios filhos.
    O menino Zezinho não conheceu o pai, e sua mãe, com tantos filhos e dificuldades, nunca teve uma moradia própria para se abrigar e abrigar aos seus, vivendo errantemente e se desfazendo de uma cria a cada esquina, e a cada esquina gerando outra. Se perde pela prostituição e pela prostituição escapa: nunca teve outro caminho. O país que concretizou tantas casas de espetáculo futebolístico para receber a elite na Copa nega uma moradia, mesmo a mais humilde, para mães solteiras pobres acolherem suas crianças e alcançarem o mínimo de dignidade.
    A presença do menino Zezinho enfeia as ruas com sua pobreza e é tida como uma ameaça aos turistas estrangeiros. O governo não quer que o mundo conheça a miséria que povoa nossas cidades e vai tentar escondê-la a todo custo, tirá-la dos olhos da elite mundial, das vistas da mídia internacional. Como entulho imprestável, o menino será chutado dali para bem distante, para o lugar da periferia de onde veio ou desaparecer para sempre, exterminado como muitos outros pobres e pretos por balas oficiais. O país que tem tantos braços e olhos para a Copa despreza e aniquila suas próprias crianças.
    Fustigado por tantas carências, abandonado à própria sorte, sem perspectiva nem carinho nem caminho, o menino se brutalizou, ou melhor, foi brutalizado no triste espetáculo de sua vida e estreou na carreira dos furtos. Enquanto era vítima, ninguém o enxergava; agora que é acusado todos o percebem para lhe atirarem pedras e lhe rogarem pragas. Os que o condenam são os mesmos que se alimentam do sistema político que o gerou: querem cadeia para o coitado do Zezinho, mas idolatram os protagonistas da Copa que furtaram milhões dos cofres públicos na superfatura dos estádios, dinheiro que faltou para o menino ser gente.
    O menino Zezinho gosta muito de futebol e torce pelo Brasil que o menospreza, mas não assistirá a copa: falta dinheiro para ingresso tão caro e não tem TV em casa, nem tem casa.

     

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    Em 15/03/2014

     

    O menino do mundo e eu

     



    Por Sousa Neto - Surgem dias que anoiteço achando a vida ruim, e talvez tenha razões para isso ou talvez não haja razões para tanto. O que tenho não é muito, mas há os que têm bem menos ou não têm nada: carregam apenas a vida coberta por fiapos de pano.
    Uma dessas criaturas aparece por aqui constantemente em busca de acolhida: tem pele escura como os primeiros humanos e é filha da escravidão que este país manteve por séculos. É um menino sem pai, sem mãe, sem ninguém, sem endereço, sem nada. Nem o nome tem nos registros oficiais: é como se não existisse, mesmo vivendo. Se desaparecesse agora, ninguém sentiria sua falta; ninguém notaria sua ausência. É alguém que vive sem existir, é um menino sozinho, é um menino do mundo.
    Outro dia, em um momento de tristeza, me disse que “coisa ruim é não ter pai nem mãe”. Eu o ouvi e me calei, e ele confortou-se com meu silêncio. Ser ouvido já foi suficiente para seu contentamento. Na ausência de palavras, pensei: se eu que tenho tantos ao meu redor me sinto por vezes saudosista e solitário, imaginem o que esse menino não sente, mas talvez sinta menos do que eu, que sou um escravo de mim mesmo, cativo de minhas próprias frustrações, presidiário do sentir pelos desequilíbrios do mundo e do tanto que grandiosamente pequeno me sinto diante de tudo. Mas ele, o menino, goza de toda a liberdade. Vive como um passarinho na mata: percorre os caminhos que quer, mas as estradas não são totalmente livres mesmo para quem a consciência deu asas. Há pedras e armadilhas nas veredas.
    Em algumas vezes o encontrei tonto de fome, caído de sono, mas não totalmente esgotado em seu desânimo. Um fio qualquer de esperança o alimenta, o faz querer estar vivo, mesmo envolto a tantos infortúnios. Não tem o que comer nem onde dormir em um país de cofres públicos tão fartos. Fartos também de leis nascidas para protegê-lo, mas nenhuma o alcança. Também eu tenho minhas fomes e minha insônia, e não são curáveis com uma mesa farta nem com uma noite de profundo sonho.
    Mas o menino que vagava por aí hoje está distante: foi levado por um circo que passou aqui, qual poeira soprada pelo vento. O circo precisou dele e ele mais ainda do circo. Encontrou acolhida, trabalho e ainda mais liberdade: percorrerá muitas cidades, verá muitas pessoas diferentes, continuará sem endereço. Agora eu invejo o menino: queria também seguir com o circo, me trajar de palhaço, correr o mundo, alegrar a humanidade inteira e que a vida fosse para sempre um espetáculo eterno de gargalhadas. .

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    Em 14/12/2013

     

    Papai aniversariou, e eu nem me lembrei

     



    Por Sousa Neto - Revirando papéis velhos, encontrei a data do seu nascimento. O 19 de setembro estava lá, perdido dentro de uma caixa que não costumo mexer, esquecido entre outros escritos mais e menos importes. Papai aniversariou, e eu não me lembrei, nunca lembrei. Meu esquecimento não o incomoda, e eu também não me incomodo com o seu.
    Não precisamos de data natalícia para lembranças recíprocas. Todo dia e a cada dia somos mais importantes um para o outro. A distância que nos separa não nos diminui a proximidade.
    Não tivemos muita convivência, mas algumas memórias da infância são inapagáveis: lembro dele me protegendo sob uma árvore enquanto uma chuva molhava todo o roçado; recordo os tijolos que eu servia com esforço para suas mãos ligeiras erguerem paredes e sustentarem uma família.
    Inegavelmente, somos parecidos no que somos e no que fazemos: ele ergue casas para abrigar pessoas; e eu construo ideias na esperança de que muitos se abriguem sob elas. Suas construções e as minhas nunca foram muito rentáveis, e nem por isso somos menos felizes, e mesmo que nos rendessem muito, não seríamos menos infelizes. O mesmo vício por trabalho, a mesma introspectividade, a mesma verdade, a mesma magreza: somos realmente muito parecidos. Talvez a única coisa que nos diferencie um pouco seja a cor da pele. Ele carrega uma aparência enegrecida pela pré-disposição genética e a farta exposição ao sol, mas é provável que sua alma seja bem mais alva do que a que me move.
    Papai não sabe ler o que eu escrevo, mas me conhece infinitamente melhor do que o meu mais fiel leitor. Não leu os livros que li nem livro nenhum, no entanto, sua leitura da vida e do mundo é irretocável. Me supera também em sua fé: papai vai ao templo e reza. Acredita que a vida não morre com a morte, e eu me orgulho e me felicito pelo seu credo. Me alegro por ter que carregar sozinho a cruz da angústia pela certeza no fim de todas as coisas.

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    Em 07/12/2013

     

    Carta aberta da fundação sobre o risco de colapso no abastecimento de Itaporanga

     



    À população e às autoridades
    Todos sabemos que sem água ninguém vive, e que esse tão preciso líquido pode se acabar, especialmente para nós desta terra com tão pouca água, mas população e autoridades podem evitar isso, fazendo cada uma a sua parte, economizando no consumo, evitando o desperdício e o desenvolvimento de planos com alternativas de abastecimento emergencial para se evitar um colapso total no fornecimento de água aos moradores urbanos, caso não chova suficientemente nos próximos meses. E é preciso também e, principamente, pensar uma solução definitiva para o problema a partitr do aumento de nossa reserva d'água. Essa é a lição de hoje, é a lição para casa, para os gabinetes administrativos, é a lição para a vida. Itaporanga e nossa região vivem uma das piores estiagens dos últimos 50 anos, e esse é o tempo de lutarmos juntos pelo pouco d’água que ainda nos resta.
    O açude Cachoeira dos Alves, que abastece nossa cidade, está com menos de 2 milhões de metros cúbicos d’água, o que é pouco para uma população urbana com cerca de 17 mil pessoas, consumindo água todos os dias, embora a cidade já viva um racionamento há mais de 12 anos em face da precariedade do seu sistema adutor. São milhares de metros cúbicos que saem diariamente do reservatório, sem contar a água que desaparece pela evaporação e infiltração.
    A situação é preocupante porque, se o açude secar, enfrentaremos grandes transtornos pela falta d’água. Todos passaremos por graves dificuldades, mas as crianças e os idosos, que precisam de cuidados especiais, são as pessoas que mais sofrerão.
    E o que podemos fazer para evitar que Cachoeira não seque antes do próximo inverno? Podemos fazer muita coisa para garantir que nossa água renda e o açude alcance a próxima temporada chuvosa:
    1º - Evitar banhos demorados e não escovar os dentes com a torneira ligada, e evitar também que carros, motos e bicicletas sejam lavados com água potável, ou seja, com a água tratada que é distribuída pela Cagepa através das torneiras;
    2º - Precisamos consertar imediatamente qualquer vazamento na tubulação de água dentro de nossa casa, porque cada gota d’água que não é aproveitada é um desperdício. Precisamos também ficar vigilantes com o desperdício na rua: um cano estourado, um vazamento qualquer precisa ser imediatamente comunicado à Cagepa ou a quem possa informar o desperdício para que o vazamento seja logo sanado;
    3º - O que podemos fazer também é o reaproveitamento da água. A reutilização é um importante meio de economia. Uma das várias maneiras do reuso é, por exemplo, utilizarmos a água da lavagem de uma roupa ou de um objeto doméstico para limparmos a calçada ou o muro, mas há outros meios de reaproveitamento;
    Economizar água é um ato ambientalmente correto, é uma ação consciente pelo bem coletivo. Valorizarmos o recurso natural mais importante para a vida, que é a água, é uma demonstração de inteligência e conhecimento. E precisamos levar essa sabedoria a todas as pessoas e alcançarmos um mar de gente para nossa luta em prol de nossa água.
    Mas as autoridades precisam também fazer a sua parte. Esta entidade protocolou ofícios ao poder público e à Cagepa no começo deste ano, mostrando o risco de um colapso no abastecimento de Itaporanga e solicitando algumas medidas urgentes para se evitar a completa falta d'água caso a estiagem se prolongue, mas nenhuma providência concreta foi tomada até agora para gerar alternativas de água para a população urbana. Um dos caminhos seria a escavação de poços em locais estratégicos na área de captação da Cagepa e em alguns bairros da cidade, o que garantiria água para o consumo humano e, ao mesmo tempo, reduziria o gasto do reservatório. Isso seria um paliativo, já que a solução definitiva para a questão passa pela reforma, ampliação e valorização do açude, aumentando sua capacidade hídrica e a qualidade de sua água ou a construção de uma nova barragem para o abastecimento da cidade. Essa demanda deve merecer a atenção também urgente das nossas representações políticas e administrativas.
    Itaporanga, 7 de dezembro de 2013.
    Fundação José Francisco de Sousa - Entidade de defesa humanitária, ambiental e cultural

     

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    Em 04/07/2013

     

    Coutinho só pode é estar de brincadeira

     



    Por Sousa Neto - Não vou contar aqui nem uma piada, embora todos nós pareçamos palhaços nas mãos destes governos que estão aí. Não costumo estar suficientemente de bom humor para fazer graça, e sempre me é mais aprazível falar das desgraças que se espalham deste Vale ao resto do país do que contar anedotas. Aliás, não vejo nenhuma razão para gracejo, até porque não integro a ala dos bajulados nem o cordão dos bajuladores; sou povo a viver as agruras de cotidianos difíceis e a perversidade de gestores que parecem rir da miséria alheia.
    A realidade desta região, que reflete o que ocorre pelo país afora, não tem graça nenhuma: vejo gente atolada na lama ou na poeira da própria rua e um rio morrendo pelos esgotos das muitas cidades às suas margens, mas os governos dizem que falta dinheiro para saneamento; vejo crianças sofrendo e padecendo por falta de um atendimento médico adequado e especializado, mas os governos dizem que não têm condições de construir um hospital infantil; vejo idosos passivos ante o próprio fim por falta de hospitais que prestem, faltam para eles, faltam para todos; vejo pessoas enfrentando filas longas e até dormindo ao pé da porta de um centro de saúde em busca de uma consulta especializada, mas os governos dizem que não pode garantir vaga para todo mundo; vejo jovens totalmente excluídos da cidadania por falta de documento, e os governos não estão nem aí; vejo gente sem qualificação profissional e sem diploma universitário e inúmeros meninos e meninas dentro de uma escola sem futuro.
    E entre graças e bajuladores, o governador Coutinho chega aqui e anuncia quase dois milhões de reais para o campo de futebol e para o campo de pouso, cujo único usuário é ele próprio. E isso só pode é ser brincadeira! Mas, na mesma linha desse humor negro, prefeitos dão 80 mil reais por uma hora de forró em praça pública e, somadas todas as horas, entre faturas e superfaturas, não há cofre que aguente: é tanto dinheiro que Santo Antônio, São João e São Pedro devem estar achando que o paraíso é aqui na terrinha, assim como, até bem pouco tempo, o mundo pensava que o Brasil vivia um mar de rosas, mas a máscara foi por água abaixo, pisoteada pelo mar de gente nas ruas. Nem os estádios bilionários e nem uma seleção campeã são agora capazes de refazer a velha ilusão.


     

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    Em 03/08/2013

     

    Um enterro em minha vida

     



    Por Sousa Neto - Terremoto é um bom e velho amigo. Divide comigo as coisas mais importantes de sua vida e as menos importantes também. Qualquer fato, feito, trato, ida, vinda, dor, amor, morte, vida, sonho, sono, insônia, desde uma gripe qualquer ao pneu furado de sua cadeira, tudo ou nada é razão pra tocar o telefone pra mim e o telefone toca muito, e não importa a hora. Outro dia, me ligou logo cedo, digo, muito cedo, pra narrar que uma porca, criação de sua cunhada, havia desaparecido. O cachorro posto no quintal para proteger os suínos também tinha sido furtado. Somente a coleira canina não interessou ao ladrão.
    Mas, em uma manhã de três semanas atrás, me telefonou enlutado: tinha recebido a notícia do falecimento do seu pai, e queria ir além de que me dar a notícia, queria que eu o levasse até Patos. O velório seria o reencontro: foram mais de 30 anos sem vê-lo e agora o reveria e nem importava que tivesse de olhos mudos. Dentro de um caixão não se guarda mágoa. Nunca condenou o pai por ter abandonado filhos pequenos e uma esposa cega. O importante é que tinha um pai e a morte os reuniria outra vez, do túmulo renasceria a família que um dia foi desfeita pelas coisas da vida.
    Antes de lhe manifestar meus pêsames, respondi que meu cansado Uno não teria pernas para ir tão longe e, para evitar mais velórios, era prudente que não me arriscasse na viagem. Sugeri, no entanto, que ele tirasse uma pequena parte do dinheiro que angariou para comprar os pneus da cadeira e fretasse um carro.
    Uma hora depois, Terremoto me liga: já estava em Patos e com um novo dilema: queria agora trazer o corpo do pai para enterrar em Itaporanga e pediu que eu lhe arrumasse o telefone do prefeito: iria falar com o gestor e pedir o custeio do traslado.
    Se você quer dar um castigo em alguém, dê o número telefônico dessa pessoa a Terremoto e fique tranquilo: nunca mais ela terá sossego. Arrumei o celular do prefeito, mas resolvi não lhe repassar, temendo que pudessem me acusar de fazer uma oposição irresponsável. Outra pessoa se encarregou de mendigar o auxílio do poder público.
    Uma hora e meia depois, Terremoto me liga: o carro da funerária já havia chegado, e estava cheio de mais um dilema. Ele queria trazer não apenas o corpo do pai, mas toda a herança deixada pelo velho: cama, televisão, cadeiras, som e algumas tralhas. O motorista se aperreou porque não havia espaço para tanta coisa. Por um momento, eu pensei que a única coisa que não viria era o morto. No entanto, tudo se encaixou e se acertou: depois do corpo posto no veículo, pouco mais coube.
    Uma hora e vinte minutos depois, Terremoto me liga: já estava em casa com o corpo e com outro dilema também: queria sepultar o pai no dia seguinte às 4h da tarde, mas o irmão preferia que fosse às 10h da manhã. Arengaram pra valer e no meio de todo aquele bate-boca, estavam o morto e eu, mas preferimos nos calar. Até hoje ainda não sei que hora foi o enterro, mas não vai faltar oportunidade: Terremoto está me ligando agora mesmo e aproveito pra matar essa curiosidade.

     

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    Em 29/03/2013

     

    Saco vazio jogado ao vento

     



    Por Sousa Neto - Ouvi vozes altas que pareciam zangadas, tão agressivas quanto o som da festa próxima, e fui à janela ver o que ocorria na rua. Diante de mim, entre precárias luzes noturnas e os rastros de perfumes dos que corriam ao show, encenou-se o espetáculo da emancipação feminina, talvez o mais importante do mundo que o mundo não viu naquela noite turva e diversamente cheirosa.
    Testemunhei a rebelião de uma única mulher, cujos braços magros e pretos abarcou todas as vontades e razões femininas sufocadas ao longo de toda a história humana: com ímpeto, a catadora de latinhas desfez-se do saco vazio que carregava entre os dedos e atirou-o ao vento como quem se liberta de amarras doídas. Respondeu com desdém à bronca do companheiro e nem deu ouvidos às ordens de reaver o saco, que, neste momento, o sopro do céu já havia carregado para longe, bem longe.
    Como de costume em noites festivas, naquela não foi diferente ou foi diferente: cobriu-se com sua mais nova roupa velha e deixou o casebre disposta a voltar com o saco cheio de latinhas ou, talvez, já tivesse saído de casa determinada a se rebelar contra o mundo e maldizer as latinhas. Enquanto isso, o companheiro, entre suas razões matemáticas e machistas, já previa a adição de um bom lucro: somando seu alumínio ao que seria angariado pela mulher, fariam alguns tostões nas próximas horas, mas a conta não deu certo: não houve latinhas, não houve dinheiro, e não houve episódio mais farto aos meus olhos do que o que se engendrou a poucos passos de minha janela. No curso entre a vila, onde habita miseravelmente, e o lugar do show, onde recolheria os vasilhames descartados pelos bebedores, ela rebelou-se contra as latinhas e contra tudo, e nem a ameaça de mais uma surra enterrompeu seu gesto e nem o riso dos transeuntes intimidou o seu grito.
    Era uma catadora de latinhas, mas, naquela noite, queria ser uma mulher: desejava correr à festa, mas não para catar latinhas; queria mover pernas e braços ao som da música, mas não para catar latinhas; tinha a vontade de buscar os amigos, olhar para outros homens, e querer apenas o seu, mas desprezar as latinhas; precisava vê as novidades, olhar os artistas, brincar, beber, e descartar a própria latinha, e se orgulhar disso.
    Para os que ligeiramente passavam por ali, e riam ou lamentavam, era apenas um desentendimento de um casal de bêbados, mas digo que era mais do que o histórico litígio entre gêneros, homem e mulher que se conflagram com a mesma força que se amam; vi no saco de latinhas correndo ao vento a ruptura feminina definitiva com a submissão e, mesmo que aquela cantadora pobre não vá a lugar nenhum, abriu portas para que muitas mulheres corram além.


     

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